Noite Suja


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Noite Suja MP oferece denúncia contra casal envolvido em crime no shopping
Em 22-06-2007.

O Ministrio Pblico ofereceu denncia nesta segunda-feira (18) contra o casal acusado de participar do crime no Cinemark do Shopping Market Place, na Zona Sul de So Paulo. Na madrugada do dia 3 de junho, a bilheteria do cinema foi roubada e um vigia do shopping, Wellington Policarpo Zacarias, de 24 anos, assassinado. ...

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Noite Suja - Preâmbulo

Faz mais de dez anos, mas ainda me parece engraçadíssimo. Era o final de uma época, e não era nada digno. Havia um bar na Consolação, do lado dos Jardins, que quando inaugurado era sensacional. Chamava-se Brew Pub e praticava uma quase novidade: era uma fábrica de chope. Servia duas versões claras: uma Pilsen, outra Weiss sem filtragem. Também tinham chope âmbar e Stolt. Este último conferia ao bom bebedor as defesas da lula: era tão forte que você lembrava-se que o havia bebido toda vez que ia ao banheiro, durante a semana seguinte inteira. Conheci um surfista que bebeu muito desse chope e, três dias depois, em Recife, foi atacado por um tubarão. Safou-se defecando-se todo e criando uma nuvem negra de proteção em torno de si. é verdade.

Tábuas de frios imensas e bem montadas, mulheres jovens e bem dispostas por todos os lados. O lugar transpirava perversão, e isso sob uma decoração que parecia ter saltado da cabeça de uma prostituta esquizofrênica. Quase todas as paredes eram salmão. Os banheiros poderiam abrigar quatro ou cinco famílias de retirantes, se Lula já tivesse sido eleito em 1994. Todo mundo ficava bêbado em menos de meia hora, porque os garçons serviam chope furiosamente, sem permissão ou pedido. Muita gente vomitava. Numa noite eu vomitei e, pouco tempo depois, estava com um copo de chope na mão. Durou pouco o bar, ao menos naquele estilo. Paulistano, brasileiro em geral, bebe muito mal. Prefere cerveja fraca, estranha sabor, se embanana todo. Os proprietários tiveram que se conformar e destruíram o próprio chope. Na última vez que estive lá, parecia guaraná. Verdadeiramente uma merda.

O fato é que, àquela época, o chope ainda era o melhor que já se tomou nesta cidade, e acho que isso colaborou para a desgraça do Pereirinha. O Pereira é portuga, como se nota pelo nome. Tem aquela cor de quem foi concebido, veio ao mundo e foi criado atrás do balcão. Comerciante nato, mas português desses do Aloísio Azevedo. Nunca se controlou. Precisava ter duas mulheres. Sempre dava um jeito. E bebe como um porco. Não poderia dar certo. Não deu.

O velho Pereira criou o bonito hábito de comer a melhor amiga da minha então namorada, e acabou se apaixonando. Chamava-se Laura. Meio gordinha, mas perfeitamente arranjada, rosto lindíssimo. Muito inteligente e uma das piores vacas que eu já conheci. Ninguém parava de rir perto dela. Parece que metia como se tivesse um rotor no útero. Pereirinha dançou. Já era casado com a ex-amante, e agora a estava traindo com uma nova amante. Isso mesmo. Pereira sempre se casa com a amante, um dia. O homem tem método.

O problema todo é que meu namoro acabou, e acabou soltando merda para todo lado. Assim, o quarteto composto por mim e minha namorada e por Pereira e sua amante teve que ser desfeito. Minha ex-namorada partiu para uma vida de sodomia selvagem e ficamos muitos anos sem nos ver. Como Laura era, além de melhor amiga de minha ex-namorada, amante do meu melhor amigo e, por último mas não somente, minha melhor amiga, naturalmente formamos um trio. Tinha tudo para dar errado. Deu.

Eu tinha um sítio. Pereira gostava de traçar amantes lá. Esposas jamais. A então esposa só ia lá enquanto foi amante. Depois que virou esposa, nunca mais foi. Ia para o sítio dele, ser traçada lá. Amante lá não entrava, só depois de virar esposa. Pereira gostava de tomar chope no Bar Barão. Para isso, ele reservava datas para amantes e esposas, porque lá sempre foi proibido beijar e isso o livrava de todas as possibilidades de flagrante. Pereira gostava de se embebedar nas cercanias da FAAP. Como a esposa trabalhava como uma camela velha, voltava direto para casa. Não tinha tempo de se embebedar em lugar nenhum. Pereira gostava de dar uns tirinhos, mas suas mulheres não. A esposa não tolerava, mas a amante sim. Dessa forma, se Pereira surgisse meio atrasado em casa, mas meio estaladinho, sua esposa lançava a conta dos atrasos meios e inteiros na fatura daquele vergonhoso nariz de batata. Eu não sei se vocês perceberam, mas Pereira era um gestor de riscos de primeira linha.

Até o Brew Pub cruzar sua vida. O homem não estava preparado para aquilo. Ficou encantado. Ficamos encantados. O trio ficou. O trio ampliou-se, porque a novidade precisava ser compartilhada com o mundo querido. Pereira retomou uma velha amizade com certo cafajeste da Mooca chamado Leppori, um homem loiro, muito bonito, com um nariz homicida. Arrumei uma franga para ele, uma moça até muito apetitosa contra quem eu havia broxado, uns anos antes. Boa menina, tinha uma amiga muitíssimo apetitosa e completamente louca, que vivia coberta de adereços prateados horripilantes. Passei uns bons meses tentando comê-la, mas eu vivia tão bêbado que não lembro se consegui. Já tínhamos um sexteto, composto por três cocainômanos alcoólatras, uma vadia maquiavélica, uma vadia inocente e uma piradona da melhor espécie que, infelizmente, não era vadia o suficiente. Já era alguma coisa. Fomos felizes.

Foi aí que Pereira errou. Estava tão empolgado com o bar que passou a ir lá três ou quatro vezes por semana. Num dia, ia com o sexteto (ou parte dele). Noutro, ia com a esposa e um conjunto de amigos pretos a quem Laura apelidou de Black Klux Kan. Eram gente da melhor espécie e deveriam ter arrumado melhores companhias. O fato é que Pereira aparecia lá as terças e quintas com a esposa e amigos, e as segundas, quartas e sábados, com a amante e uma renca de imprestáveis. Sentava-se sempre na mesma mesa (fato que viria a aprofundar severamente sua desgraça, como se verá adiante) e se deixava atender sempre pelos mesmos garçons. Dava sempre as mesmas gorjetas e bebia cada vez mais. Dilapidou todas as linhas de crédito que possuía, inclusive o cheque azul da caixa cuja detonação até hoje me é atirada na cara. Um desplante.

Era uma questão de tempo. O tempo escoou. A ampulheta virou numa noite de quinta-feira em que decidi resistir aos apelos do sexteto parcialmente reunido e, intimidado pelo meu saldo devedor, decidi retirar-me mais cedo. Despedi-me de todos, cumprimentei garçons e sócios (meçam o nível de intimidade com a casa), desci os poucos degraus da entrada e virei à direita, subindo a Consolação em direção à Paulista. Menos de meia quadra depois ouvi pequeninos golpes contra a calçada, provocados por tamancadinhas rápidas. Tamancadinhas típicas do Tatuapé. Tamancadinhas típicas de um andar apressado, que aproximavam-se de mim sem me notar. Levantei os olhos e os cruzei com os olhinhos rasgados, meio espremidos na cabecinha triangular e morena de Vaninha. Vânia Cristina. A mulher e ex-amante do Pereira descia ao Brew Pub. Era uma mulher severa.

- Oi, Ed!; seca, todavia sinceramente surpresa;
- Oi, Vânia; dissimulado e nem um pouco surpreso;
- Quê cê tá fazendo aqui?; ainda sinceramente surpresa;
- Indo para casa; ainda dissimulado e já ansioso;
- Você estava no Brew Pub?; incisiva e redundante;
- Isso; com uma coceira no céu da boca;
- Com o ênio?; chamando o canalha pelo prenome;
- Isso; envergonhado em sentir que, não estando ao meu alcance evitar o inevitável, estava feliz em saber que não perderia a cena do circo sendo tomado pelo fogo e, ainda, teria uma desculpa para voltar a beber;
- Eu descendo lá vou ver uma coisa que não vou gostar, né não?; já humilde e amargurada.

Que queriam que eu dissesse? Se negasse, ela não desceria do mesmo jeito? Já estava lá. Fiz cara de bunda. Bundana cara.

- Boooom, Vânia; condescendente e emulando falta de jeito. Fui recompensado. Veio o convite:
- Você vem comigo; imperiosa e resoluta.

A partir daqui, a coisa tomou rumos absurdamente constrangedores, além de amargamente hilários. Não há condição de desdobrá-los sobre os senhores sem uma série de pequenos intróitos, detalhamentos mil e notas de rodapé. Os senhores farão a gentileza de nos conceder algum tempo. Afinal, não é à toa que a sessão chama-se “Crônicas Bundanas”, no plural. é que são várias crônicas, e o final desta narrativa se dá na próxima. Ou nas próximas.


Ed Smerald

www.leveiumpenabunda.com.br


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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